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Maranhão resiste à queda nacional e lidera queimadas em 2025

Ocupação do solo, baixa umidade e falhas na resposta estadual explicam por que o Maranhão continua entre os líderes nacionais em focos de queimadas

Lívia Guedes

Mesmo com a redução geral das queimadas no Brasil em 2025, o Maranhão segue na contramão e voltou ao topo do ranking nacional, com 20.338 focos registrados até novembro, segundo dados do TerraBrasilis (INPE). O número supera Pará, Bahia e Tocantins e revela uma persistência histórica do fogo no estado, especialmente na faixa que marca a transição entre Amazônia e Cerrado, área ecologicamente sensível e onde os incêndios costumam se intensificar em anos de seca mais prolongada.

A redução nacional registrada em 2025 está diretamente ligada ao comportamento dos oceanos. Segundo Guilherme Borges, meteorologista da FieldPRO e doutorando em Meteorologia pelo INPE/CPTEC, o cenário deste ano foi muito diferente do observado em 2023 e 2024. “A configuração dos oceanos mudou bastante em comparação aos anos anteriores, e os oceanos moldam o clima dos continentes”, explica. “Com o Atlântico menos aquecido e mudanças no Pacífico, as massas de ar ficaram menos quentes e secas, e isso influenciou a queda do número de queimadas no Brasil.” afirma. 

 

A análise municipal reforça esse descompasso. O mapa seguinte mostra o corredor crítico no sul do estado: Mirador, com 1.189 focos, lidera com folga, seguido por Alto Parnaíba (853) e Grajaú (738). São justamente municípios onde o período seco é mais longo e a vegetação responde pior à baixa umidade.

Agosto e setembro concentram as maiores ocorrências porque são meses mais secos, nos quais o vento reacende e, segundo o meteorologista, espalha fagulhas “mais rápido do que o normal”, favorecendo o avanço das chamas.


A distribuição por bioma ajuda a entender por que essa região sofre mais: quase 80% dos focos registrados no estado ocorreram no Cerrado, que respondeu por 15.731 queimadas. A Amazônia maranhense, embora represente cerca de um terço do território estadual, registrou 4.308.

Para o professor Daniel Silas Veras, do IFMA, esse desequilíbrio está diretamente ligado à forma como o território vem sendo ocupado: “o incremento no número de incêndios está associado a atividades humanas. No geral, o desmatamento da floresta ou mata nativa para atividades agropecuárias ou madeireiras estão ligadas intrinsecamente ao fogo, que são agravados pois essas atividades têm sido relacionadas com aumento de temperatura média e redução da umidade potencializando as queimadas”, contou.


Isto confirma que a situação não é pontual. Embora 2025 esteja abaixo dos picos de 2012 e 2007, quando o Maranhão ultrapassou 40 mil focos, o ano permanece acima da média registrada entre 1999 e 2005, revelando que, mesmo em períodos climaticamente mais favoráveis, o estado não consegue retornar a níveis consistentemente baixos de queimadas.

Desde 2024, o governo federal ampliou o investimento em prevenção e combate ao fogo. A Política Nacional de Manejo Integrado do Fogo (PNMIF), aprovada naquele ano, é considerada um dos principais avanços.


Segundo André Lima, secretário extraordinário de Controle do Desmatamento e Ordenamento Ambiental Territorial do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima (MMA): “A lei é um marco importante para a transformação do Brasil em um território resiliente ao fogo. Os períodos de seca severa, consequência do agravamento das mudanças do clima no nível global e regional, intensificaram os incêndios em todos os biomas. A lei propõe ações integradas, com o envolvimento de comunidades locais, proprietários rurais, instituições governamentais nos três níveis, sociedade civil e academia. O resultado será um ambiente mais protegido e resiliente.”


A lei que o secretário cita é a PNMIF (Lei 14.944/2024), sancionada em 31 de julho de 2024, institui um marco nacional de combate e prevenção a incêndios. A norma regula todos os usos do fogo, definindo queimas controladas, prescritas e reconhecendo o uso tradicional em comunidades indígenas e quilombolas e cria mecanismos de governança (comitês), monitoramento (Sisfogo), brigadas florestais e educação ambiental.


Entre as ações previstas estão a contratação de 4.385 brigadistas em 2025, maior contingente da história, a ampliação da frota aérea do Ibama, a criação do Sisfogo e a destinação de R$ 45 milhões ao Corpo de Bombeiros do Maranhão via Fundo Amazônia.


Ainda assim, a cobertura permanece desigual. Enquanto estados como São Paulo possuem comunicação ambiental estruturada, boletins diários e monitoramento integrado, o Maranhão depende majoritariamente das bases federais para divulgar dados, tornando a crise menos visível nacionalmente e mais difícil de enfrentar localmente.


De acordo com o professor Daniel Silas, “ainda há deficiências na implementação da política a nível dos estados, e principalmente o financiamento para o treinamento, aquisição de equipamento, fiscalização e desenvolvimento de sistemas de informação sobre o fogo.”


Essa desigualdade também se expressa nos impactos sociais. De acordo com dados do IBGE, o estado tem 79% da população negra, mais de 57 mil indígenas e cerca de 269 mil quilombolas, que concentram grande parte dessas comunidades em áreas rurais onde as queimadas são mais frequentes. 

 

Novo fundo para florestas tropicais


Durante a COP30, realizada em novembro deste ano, em Belém, os incêndios florestais foram um dos principais temas das negociações, especialmente após 2024 registrar recordes de fogo em diferentes biomas. Ainda segundo o professor, esse destaque refletiu a percepção internacional de que os incêndios ampliam o risco climático e a perda de biodiversidade. Entre os encaminhamentos discutidos, ele aponta como mais concreto, a “criação do Fundo Florestas Tropicais para Sempre (TFFF) que foca na proteção e restauração de florestas”, relata.


Proposto pelo Brasil, o fundo inaugura um novo modelo de financiamento que transforma a conservação em investimento: o país anunciou o primeiro aporte de US$ 1 bilhão, com expectativa de atrair recursos de governos e investidores privados, cujos retornos seriam repartidos entre os países florestais e os financiadores.


Segundo a matéria da Agência Brasil, o Brasil fez o primeiro aporte, de US$ 1 bilhão, e outros países já anunciaram contribuições, somando mais de US$ 5 bilhões. A expectativa é mobilizar até US$ 25 bilhões para alavancar investimentos privados que podem chegar a US$ 125 bilhões. 


Previsão para o fim do ano é que os riscos permanecem


Com a chegada das chuvas, a tendência para o fim do ano é de redução nos focos. O meteorologista Guilherme Borges relata que o país já está no período de transição:  “a gente sai do período mais seco e tá no período mais chuvoso. A transição passa para um período chuvoso [...] então consequentemente começa a ter uma redução no número de queimadas.”Ele destaca que, no verão, a combinação de chuvas mais frequentes e maior nebulosidade reduz significativamente os focos, freando o avanço do fogo.


Embora o período chuvoso traga alívio, a vulnerabilidade permanece elevada em razão da urgência climática e do enfraquecimento recente de normas de proteção ambiental. No Maranhão, essa fragilidade se agrava pela combinação de condições ambientais adversas, desigualdades sociais e pouca estrutura local de prevenção. Assim, mesmo com queda nacional em 2025, o estado segue acima da média histórica, pressionando áreas rurais e territórios tradicionais. O cenário indica que avanços duradouros dependem não apenas do clima, mas de políticas contínuas, fiscalização e maior capacidade de resposta nos municípios.

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