Torcida única não é efetiva como solução para a violência no futebol brasileiro
Apesar de adotarem a torcida única, Bahia e São Paulo estão entre os cinco Estados mais violentos do país
Giulia Vanni e Luiza Vezzá
Há quem pense que violência e futebol andam juntos, que se corre perigo ao entrar num estádio para ver o time do coração jogar, e até mesmo que a ausência da torcida adversária protege o torcedor. No ano de 2016, o Ministério Público de São Paulo instaurou a regra da torcida única em clássicos no Estado, com o objetivo de coibir a violência nos estádios. Paralelamente, no Estado da Bahia, o intenso histórico de conflitos entre torcidas fez com que a medida da torcida única em clássicos entrasse em vigor no ano de 2017.
No Brasil, as torcidas organizadas já passaram por muitos processos de regulamentação, como o cadastramento obrigatório dos torcedores em meados de 2011 e leis de endurecimento da punição para torcedores envolvidos em episódios violentos. Esta reportagem analisou matérias em destaque sobre violência nas torcidas organizadas entre janeiro de 2017 e novembro de 2024. No período, foram publicadas 327 reportagens, nas quais foram registrados 138 conflitos, 36 destes deixaram óbitos.
Foi descoberto que, mesmo com as medidas em vigor, São Paulo e Bahia ainda
O fator local apresenta um padrão que é refletido em todo país, apesar da medida da torcida única parecer resolver a violência nos estádios, os conflitos continuam acontecendo fora dos estádios, muitas vezes em locais pré definidos pela internet. Segundo Irlan Simões, jornalista e especialista em relações sociais no futebol “As brigas são sempre em estações de trem, em estações de metrô, bairros mais movimentados, onde você vai ter um ponto de ônibus mais relevante, uma estação perto do estádio em si”, ou seja, onde os membros das torcidas se encontram para ir aos jogos.
Em 2022, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo publicou, em nota, que verificou redução nos conflitos, “de emprego de efetivo policial e aumento do público nos estádios”, destacando também o aumento de público dos estádios em 29%. Não foi estabelecida uma transparência efetiva sobre a metodologia utilizada para a obtenção dos dados, se consideram apenas ocorrências nos estádios e arredores, quais tipos de confusão e o motivo do recorte temporal escolhido (entre 2018 e 2019).
A punição para torcedores envolvidos em conflitos é diferente em cada Estado. O maior número de matérias que falava sobre punição e consequências para com torcidas organizadas e seus membros foi publicado sobre o Estado de São Paulo, o total de nove. Em todo país, 86 conflitos aconteceram sem que pessoas fossem presas ou detidas. Foram consideradas as dez Unidades Federativas mais violentas, a impunidade é um fator comum na maioria delas.
A torcida única em São Paulo
No dia 03 de abril de 2016, focos de brigas entre torcidas de Palmeiras e Corinthians se alastraram pela grande São Paulo, horas antes dos dois times entrarem em campo, no estádio do Pacaembu. Dois conflitos aconteceram em São Miguel Paulista e Guarulhos, cerca de 30 quilômetros de distância do local da partida; o outro, na estação do Brás, linha vermelha do metrô, a oito quilômetros do estádio. Uma pessoa morreu e 25 foram presas.
A vítima fatal, entretanto, nada tinha a ver com o clássico. Era um pedestre de passagem pela praça Padre Aleixo Mafra, na Zona Leste, que foi atingido por um tiro. O assassino não foi identificado.
Luan Araújo, jornalista e corintiano, estava presente no jogo que teria ocasionado a confusão. Com 26 anos à época, pegou o metrô à tarde, acompanhado de um amigo. Como é de costume do torcedor em desvantagem, algumas precauções foram tomadas: camisa à paisana, andar apenas por ruas conhecidas e evitar entrar em meios da torcida mandante. Não foram registrados focos de violência nos arredores ou dentro do estádio.
No dia 04 de abril, o secretário de Segurança Pública de São Paulo à época, Alexandre de Moraes, o vice-presidente da Federação Paulista de Futebol, Fernando Sollero e o promotor Paulo Castilho, acompanhados de delegados e desembargadores, definiram que os clássicos passariam a ter torcida única até o final de 2016, em todas as competições. Além disso, as torcidas organizadas foram proibidas de entrar com materiais, como faixas e adereços, nos estádios.
A medida se estende para todos os clássicos entre os quatro grandes (Corinthians, Palmeiras, São Paulo e Santos), para alguns clássicos do interior, como o Derby Campineiro (Ponte Preta e Guarani), e jogos comuns entre os times de Campinas e os da capital. Por exemplo, uma partida entre Ponte e Santos, no Moisés Lucarelli, contará unicamente com ponte-pretanos.
Desde 2017, 24 mortes em São Paulo foram reportadas com relação a conflitos entre torcidas e episódios de repressão, enquanto apenas cinco dessas mortes aconteceram dentro ou no entorno dos estádios. A torcida que mais protagonizou episódios de violência no Estado foi a Mancha Verde, do Palmeiras, que teve registro de 12 presos no período analisado.

Bahia, 2017
No dia 09 de abril, uma confusão generalizada fora da Arena Fonte Nova, pelo campeonato estadual, aconteceu após o fim da partida. Um torcedor do Bahia, de 17 anos, morreu baleado, e 45 pessoas foram detidas.
A família da vítima esclareceu que ele não era membro de torcida organizada. Quinze dias depois da confusão, a medida de torcida única foi instaurada no estado. Um membro da torcida “Os Imbatíveis”, do Vitória, foi preso pelo período de sete meses, depois liberado por mudanças de testemunho.
Apesar dos acontecimentos, tanto o Bahia, quanto o Vitória, se posicionaram contra a adoção da torcida única. Os rivais entenderam que, dentro do estádio, os setores mistos foram um sucesso. Em nota oficial, a direção do Rubro-Negro declarou: “A torcida única priva o torcedor de bem de comparecer ao estádio para ver o seu time do coração. Acreditamos que isto depõe contra o processo de popularização e democratização do futebol enquanto modalidade esportiva e opção de lazer”.
Irlan Simões, que também é natural de Salvador e torcedor assumido do Vitória, levantou o questionamento: “Como é que você pode me dizer que eu, que nunca matei uma mosca, não posso entrar no estádio porque há chance de que, pelo fato de eu ser torcedor visitante rival, eu vou me envolver numa briga?”. E continuou, dizendo que “é basicamente dizer que o torcedor do Vitória não entra na Fonte Nova há muitos anos. Claro, tem um ou outro jogo lá do Vitória, mas simplesmente o estádio público do Estado não é acessível para nós”.
Uma série de ocorridos influenciou na adesão da torcida única: "Teve um Ba-Vi que teve uma confusão com a Polícia Militar, não foi entre torcidas e acabou também dando uma uma impulsionada nessa ideia", comentou. O pedido partiu do Ministério Público do estado, e ambos os clubes declararam que não aceitariam. Em intervenção da CBF, o Diretor de Comunicações, Manoel Flores, informou que os clássicos deveriam ser realizados com uma só torcida. A Federação Bahiana de Futebol também foi contrária, mas pediu aos times envolvidos que, por prudência, a recomendação fosse cumprida. Desde então, 34 pessoas morreram e 41 foram punidas por episódios violentos entre torcidas organizadas.
O que ficou conhecido como “Ba-Vi da Paz”, em fevereiro de 2018, foi o último jogo com torcida visitante. Dentro de campo, uma confusão generalizada interrompeu a partida, encerrada antecipadamente, porque nove jogadores foram expulsos. Apesar do comportamento dos atletas, não foram registrados problemas nas arquibancadas ou nos arredores do Estádio Manoel Barradas, o Barradão. A medida voltou a ser implementada para os clássicos seguintes, e o que era para ser temporário, se estende até os dias de hoje.
Minas Gerais
Em janeiro de 2024, Cruzeiro e Atlético-MG assinaram um acordo junto à Polícia Militar e Ministério Público para que não houvesse torcida visitante em clássicos até o final de 2025. A escolha da torcida única nos clássicos mineiros partiu dos clubes, sem direta do Estado, e como não existiu determinação dos órgãos de segurança, a decisão só pôde ser praticada através de um acordo assinado entre os rivais, em conjunto com a Polícia Militar.
O primeiro clássico com torcida única aconteceu antes do acordo, na Arena MRV, pelo Brasileirão de 2023. Da parte do Galo, reclamações de vandalismo de cadeiras, câmeras e do banheiro. Da Raposa, alegações de que o mandante teria retirado as portas dos banheiros femininos e ferido a “boa-fé”.
Entretanto, em 2022, uma reunião da Polícia Militar com as torcidas organizadas Galoucura, do Atlético Mineiro, e Máfia Azul, do Cruzeiro, estabeleceu uma série de recomendações importantes para a realização dos clássicos do ano, apostando, também, em serviços de inteligência para antecipar conflitos distantes do local da partida, marcados pela internet. O órgão já havia se posicionado a favor das visitantes, por questões de controle e logística.
Irlan entende o posicionamento da PM como uma forma de manter as torcidas por perto e diminuir focos de briga: “Na região metropolitana não existe como você controlar isso. A violência está aí, espalhada. Vai ser assim. Quando você leva as duas torcidas para o estádio, você tem uma capacidade maior de controle, de planejamento desse processo”.
O grito das arquibancadas
Ainda que a opinião de quem vive o futebol pareça ser a que menos importa na discussão, é necessário ouvir quem está envolvido no dia a dia dos estádios. Gabriel Kobayashi, da bateria da Mancha Alvi Verde, acredita que a medida não é efetiva, e que de certa forma, prejudica mais do que ajuda: “A torcida única, para mim, é só uma resposta das autoridades para a mídia de uma falsa solução da violência nos estádios, porque, na prática, as brigas continuam acontecendo longe dos estádios, na rua, nas estradas”. Para ele, o clima dos jogos também mudou:
“Perde um pouco da graça, né? Um pouco não, muito da graça de um clássico, não ter o seu rival ali pra tirar um sarro na hora. Não tem mais aquela competição de quem faz mais festa, de quem canta mais alto e não tem você desabafando ali na frente do seu adversário, comemorando”.
Dados recolhidos para esta reportagem mostram que o proibicionismo no Brasil ainda é muito forte, no recorte temporal foram concretizadas 38 sanções de proibição às torcidas organizadas. Kobayashi complementa: “ao invés de punir os responsáveis, o CPF, as autoridades preferem punir o CNPJ como instituição, como se fosse resolver algo. E as pessoas, que cometeram os atos, continuam entrando com a única diferença de não estarem uniformizadas”, no que faz referência às punições de materiais da torcida, ainda que os membros continuem frequentando com normalidade.
Luan Araújo define como “uma decisão preguiçosa, de gente que não gosta de trabalhar”. O corintiano ainda apresentou um ponto de reflexão sobre os impactos da medida na nova geração, que “não está acostumada a conhecer a cultura do rival”.

Simões se aprofundou nos motivos para a inserção da torcida única, apontando o uso do pânico moral:
“se você usa isso de forma tão eficiente como dizer ‘se você não tiver uma das torcidas, você não vai ter briga’, quando acontecer, ninguém vai ligar, ninguém vai saber, ninguém vai ouvir falar, não vai ter um escândalo porque foi o dia de jogo. Essa falsa sensação de segurança acontece exatamente porque você imagina que não vai ter com uma das torcidas”
As torcidas paulistas não dividem arquibancada há oito anos. Salvo exceções, como a final da Supercopa do Brasil de 2024, em que o Choque-Rei (Palmeiras e São Paulo) aconteceu com ambas torcidas, no Mineirão, em Belo Horizonte. As operações policiais de escolta foram feitas de forma que as organizadas rivais saíssem da capital paulista com horas de diferença. Naquele dia, o futebol não foi bonito, mas a festa nas arquibancadas foi exemplar, marcando a primeira vivência de clássico ‘meio a meio’ dessa nova geração de torcedores.
Um ponto comum citado pelos entrevistados para jogos com torcida visitante é a necessidade de operações da polícia em dia de jogo. Pré-determinadas em parcerias entre torcidas e segurança pública, através do diálogo e planejamento é possível que o trajeto seja feito sem imprevistos. Para Kobayashi, “é o único meio possível”.
O primeiro Derby da Neo Química Arena, em 2014, quando ainda não havia torcida única, é citado como exemplo de organização conjunta. Segundo Luan, na ocasião, a PM determinou uma rota que para os torcedores, ou "todo mundo que conhece minimamente a região sabe que não dá pra passar nem a torcida do Palmeiras, ou qualquer torcida visitante”, e que a “torcida do Palmeiras firmou e falou: vamos fazer o nosso plano”.
A solução apresentada por um dos dirigentes da Mancha Verde foi um trem expresso que atravessaria, de ponta a ponta, a linha vermelha do metrô, sem baldeações ou paradas, com escolta da PM. Com ida e volta feitas em segurança, não houve conflitos, e o modelo foi adotado oficialmente nos clássicos seguintes em Itaquera. Rodrigo Barneschi, no livro “Forasteiros: Crônicas, vivências e reflexões de um torcedor visitante” diz que “a Mancha Verde, tão em baixa com a opinião pública, consagrou-se como responsável por definir o esquema de logística e segurança que deveria caber ao Estado”.
Sobre as estratégias elaboradas, Luan ainda diz que “Não tinha mais risco de briga porque as torcidas saíam, definiam seus locais de saída, seus locais de entrada. A polícia também sabia. Então, eu acho que nesse ponto essa modalidade de visitante era mais segura”, exemplo que pode ser aplicado à realidade em Belo Horizonte.
Segundo Irlan, os focos de confusões acabam se manifestando com mais frequência em estações de trem ou metrô, porque “dentro do estádio que você define o trajeto, você define a rota de chegada, Você define os portões, os estádios hoje tem setores separados”.
Existe a possibilidade de volta das torcidas visitantes?
Em 2024, algumas conversas indicaram a tentativa de volta por parte de entidades. Dentre os dirigentes do estado de São Paulo, quem se destacou na luta foi Leila Pereira, presidente do Palmeiras. Pereira afirmou ser completamente contra a medida e apontou o reconhecimento facial do Allianz Parque como um ponto a favor na identificação de culpados e punição individual.
A proposta citada pela presidente do Alviverde é de que os quatro grandes do estado comecem uma campanha para “valorizar este grande produto que é o futebol”, e ainda disse: “não adianta assinar um pacto, um papel. A gente precisa agir. Eu me coloquei à disposição do Ministério Público e vamos trabalhar por isso”.
Na Bahia, o presidente do Vitória, Fábio Mota, também usou da biometria facial implementada no Barradão como argumento para a volta das visitantes:
“Com a biometria facial você consegue identificar todo mundo que entra no estádio, então não tem mais desculpa de dizer que você não sabe quem ali estava”
Além disso, reforçou seu compromisso a favor da torcida mista nos Ba-Vis.
A promotora Thelma Leal, do Ministério Público da Bahia, se prontificou para mudanças no Estado, Apontou a falta de punição por CPF e a ausência do isolamento no entorno dos estádios como entraves para a volta das visitantes.
A promotora afirmou que "falta interesse" por parte do Estado, e que não entende a extinção das torcidas organizadas como solução, uma vez que novas alternativas se criam. A exemplo de caso de sucesso, Thelma cita o Maracanã e as operações logísticas do Rio de Janeiro, que não tem torcida única, em dias de jogo.
Com o posicionamento contrário às autoridades, resta um movimento por parte dos times como possível solução. Luan Araújo entende que “Se os clubes ou outros agentes perceberem que é rentável financeiramente, isso pode voltar. Mas por apelo das torcidas, eu acho que é muito difícil. Eu acho que tem que ser por interesse de alguém de cima”.
O debate, entretanto, ainda é muito freado pelo clubismo, e para Irlan Simões, falta união e princípios para que a discussão possa ser levada adiante:
“Ninguém se junta para falar ‘tá fora de controle, tá tendo muita violência policial no estádio’. Mas no Brasil a gente não tem essa discussão. Preço de ingresso, quando é o seu clube abusando, você reclama com sua diretoria. Quando é o rival fazendo um ingresso barato, você fala que tá barato demais, por isso que tá cheio. Não existe uma lógica política clara de que a gente tem que defender certos princípios para jogos de futebol. Quando é entre torcida única, é a mesma coisa. Porque você, nessa lógica, não quer o seu incômodo. Você não quer ser incomodado dentro do seu estádio. Você quer a ausência do seu visitante. Na hora de você ser visitante, você fica puto porque ficou do lado de fora. Então, politicamente, o brasileiro nunca se organiza, ele nunca suplanta o clubismo para poder ter uma pauta política conjunta. O que é lamentável".