Quase 70% dos jovens negros e pardos não possuem instrução no Brasil
Júlia Faria
Matheus Mocarzel
Vicente Ricardo
Seis entre dez homens pretos e pardos que largam a escola, abandonam os estudos para trabalhar ou procurar trabalho. Em contrapartida, mais de um terço das mulheres pardas e negras que desistem dos estudos, realizam trabalhos de cuidado. O gráfico revela um número alarmante que assola o cenário brasileiro, no qual grande parte dos jovens priorizam o trabalho, seja por questões sociais, econômicas ou políticas. A pesquisa deixa evidente as desigualdades raciais e socioeconômicas que permeiam o sistema educacional brasileiro.

Dentro deste cenário, Ryan Guedes, um jovem negro de 18 anos que está se formando no terceiro ano do ensino médio, considera uma grande vitória ter conseguido o diploma, conciliando trabalho e estudos. Ele começou a trabalhar cedo, aos 14 anos, para conseguir sair da casa do pai, reduzir as despesas e morar sozinho. Agora, aos 18, trabalha em uma loja de smoothies, enfrentando uma jornada exaustiva de domingo a domingo, das 14h às 22h e precisando conciliar essa rotina com os estudos.
Ryan já havia pensado algumas vezes em abandonar a escola para priorizar o trabalho, mas recebeu muito apoio do diretor da escola e dos colegas, o que o motivou a continuar. No entanto, a questão das faltas e das horas de sono reduzidas dificultava sua dedicação aos estudos. Muitas vezes, ele deixou de fazer trabalhos e lições por falta de tempo. Além disso, o problema com as faltas tornou-se crítico, já que, frequentemente, ele precisava abrir a loja e não podia comparecer às aulas. Ele chegou a faltar tanto que foi avisado de que, caso continuasse e ultrapassasse o limite de 30% de faltas permitidas, seria considerado abandono escolar.
DIFERENÇA ENTRE ABANDONO ESCOLAR E EVASÃO ESCOLAR
É importante destacar a diferença entre abandono e evasão escolar. O abandono ocorre quando o estudante deixa de frequentar as aulas sem concluir uma série ou o ano letivo. Já a evasão acontece quando o aluno, independentemente de ter sido aprovado ou não, opta por não retornar à escola no ano seguinte, ou seja, não efetua a matrícula.

Quase 70% da população analfabeta brasileira é composta por pessoas negras e pardas. Isso é o que o último censo realizado pelo IBGE revela sobre a população brasileira. A porcentagem revela um número preocupante, em que há uma disparidade clara entre brancos e negros e pardos na educação brasileira. É válido relembrar que a Lei de Cotas foi oficialmente instaurada apenas há 12 anos, o que é relativamente recente, visto que faz menos de 15 anos em que a sociedade brasileira reconheceu a desigualdade racial na esfera acadêmica brasileira.
Para Marina Escorel, professora do departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH), existe uma questão de falta de reconhecimento da autoimagem do aluno preto e pardo nas matérias ensinadas no ensino brasileiro: “Não há nas matérias oferecidas e nos enfoques as matérias, a presença do elemento negro e pardo na sociedade. Quando você ensina história, o preto é escravo. Quando você ensina português, autores negros não são citados. Desde 2003, existe uma lei que torna obrigatório o ensino da história da África e cultura afro-brasileira. Isso não é cumprido. Há um comportamento que está presente na sociedade que acaba entrando no ambiente escolar.”
A realidade de Ryan, de trabalhar com 14 anos de idade para reduzir as despesas da casa e não conseguir se dedicar na escola devido à fatores socioeconômicos, é traduzida no cotidiano de diversos estudantes brasileiros negros e pardos ao redor do Brasil. Entretanto, diferentemente do jovem, grande parte dos estudantes não possuem infraestrutura familiar ou de amigos e professores para continuar estudando. Dados do último censo do Instituto Brasileiro de Geografia (IBGE) revelam que 66,37% de pessoas negras acima dos 25 anos não prosseguiram com os estudos.

Para Joel Zito Araújo, cineasta premiado responsável por tematizar o negro na sociedade brasileira, o problema se restringe apenas para raça e gênero, ela se estende para a classe social: “O racismo internalizado faz com que os professores tenham no jovem negro uma baixa expectativa no rendimento deles, uma baixa expectativa sobre o futuro. As escolas públicas são muito voltadas para o disciplinamento do trabalho, para formar pessoas submissas, diferentemente das escolas de elite.”
METODOLOGIA
A base de dados dessa reportagem foi coletada pelos integrantes do grupo, a partir de informações já disponíveis na internet. Para montar a base de dados, buscamos dados do IBGE, do INEP e de outros institutos educacionais que oferecem microdados gratuitamente sobre o recorte de gênero e raça na esfera educacional brasileira.
Após fazer a coleta da nossa base de dados, fizemos a limpeza deles. No caso dos dois últimos gráficos, os dados disponibilizados foram relacionados com a população brasileira como um todo. Então, somamos a porcentagem dada e colocamos como 100% da população analfabeta brasileira e sem instrução no Brasil. Assim, conseguimos fazer as correlações da porcentagem de cada gênero e raça em relação à educação no país, o que ajudou em uma análise profunda de nossa hipótese.
Por ser um tema que há uma diversidade muito grande de microdados, houve um cuidado extremo para não tangenciar e deturpar os dados. Certos gráficos precisamos deixar explícito sobre qual recorte usamos, para não haver ambiguidades no tema. Outro fator que foi notado na limpeza dos dados, foi a importância dos microdados para a construção da reportagem, visto que para falar sobre a educação no Brasil, é necessário saber da classe social, gênero, raça, contexto social, dentre outros fatores. Todos os cuidados tomados foram essenciais para a construção de uma reportagem verídica e transparente.